
Normalmente, eu penso bastante na minha infância. Mas hoje, por ser 12 de outubro, pensei ainda mais. E deu pra perceber que tenho tudo aqui dentro ainda. Felizmente, meu lado criança tá vivo. Bem vivo. O bom é que ele tá vivo, mas não suplanta o adulto - porque tem muita gente que não consegue botar limite entre um e outro, de forma que se confundem muitas e muitas vezes.
Ao longo do tempo, diferentes pessoas já me fizeram o mesmo comentário: você é uma menina grande. Cabeça de mulher, corpo de mulher e jeito de menina.
Isso é um tremendo elogio.
Principalmente nos dias de hoje, em que muitos se esqueceram do que já dizia Cliché Guevara sobre endurecer jamais, e endureceram...
E aí hoje me deu uma vontade de pontuar algumas coisas importantes - sob meu ponto de vista - da minha infância.
Principalmente porque esse ano tem sido um ano extremamente importante pra mim, que tem me trazido infinitas possibilidades de amadurecimento, um grande desafio para a criança que mora aqui dentro. Ou ela vai, ou ela racha. Mas ela tem ido... às vezes dá uma chorada, às vezes faz umas birras, se joga no chão, diz que vai fugir de casa, mas tem ido bem.
Então, lá vai.
- Minha lembrança mais antiga: um rádio-relógio com números vermelhos digitais, que eu conseguia ver no final de um corredor, em cima de um criado-mudo. Eu tinha 2 anos. Acho que é a memória mais antiga que tenho.
- Depois, a segunda memória mais antiga, um episódio dos Barbapapas.
- 1982: minha primeira irmã nasceu. Pra evitar a ciumeira, meus pais prepararam o terreno da forma mais incrível que eu já ouvi falar: eles mandavam entregar presentes na minha casa, pra mim, e diziam que era minha irmã Livia que tinha mandado, quando minha mãe estava grávida. Foi nessa que eu ganhei uma cadeira de balanço pela qual tinha loucura. Lembro que quando a Livia chegou em casa, eu já era fã dela, ela já era minha parceira, porque uma figura gente fina assim, que mandava presente antes da estréia, não se encontrava em qualquer lugar. A primeira vez que eu a vi, pensei: Meu Deus, como eu faço pra ter um cabelo branco desse, igual ao dela? Era o bebê mais lindo que eu já vi na vida, nunca nenhum outro superou. A partir daí, minha mãe colocava a Livia-bebê todas as manhãs na minha cama, pra eu acordar feliz, olhando pra ela. Também foi o ano de estréia de ET, e eu desenvolvi uma estranha obsessão por seres esquisitos (que acho que se manteve até hoje...)
- 1983: nasceu minha segunda irmã. E lembro que foi meio tensa essa época, porque ela nasceu de 8 meses e não chorava. Ela era tão pequena que eu tinha medo de quebrá-la... Foi paixão à primeira vista. Tudo o que a Livia-bebê-e-criança tinha de bebezão, a Lenita-bebê tinha de frágil. Mas daí o tempo passou, ela atingiu quase os 1,80 de altura, virou campeã de judô e ficou tudo bem... Foi nesse ano, também, que eu esfreguei um grampo de cabelo no meu braço até machucar e culpei a professora. Minha mãe foi lá, desceu o cacete na escola, fez e aconteceu, pra depois passar carão comigo, dizendo "Fui eu que fiz com o grampinho". Tudo bem, a vida fez justiça: sou professora hoje.
- 1984: eu acho que foi nesse ano que mudamos pra Curitiba, mas não tenho certeza. Mas da vida em Curitiba eu não falo.
- 1985: minha primeira lembrança política: o Tancredo foi eleito presidente e morreu na sequência. Eu me lembro de ver muita gente triste, lembro até que chorei (nem sabia porque, mas tava todo mundo chorando...). Pressentia que não vinha coisa boa... Foi também o ano do cometa Halley e eu PIREI com essa história. Lembro que eu queria ir embora no cometa, porque eu me achava meio diferente das outras crianças, meio louca, sei lá... Básico. Esse estado me acompanhou, como pode ser percebido...
- 1986: meus pais pagaram uma viagem de acampamento pra mim, com a escola. A maior roubada. Punk-rock-selvageria-total. Lembro de um sapo e uma aranha-mega no quarto. Eles me tiraram da escola no meio do ano por causa disso e conseguiram uma vaga num dos melhores colégios da cidade. Eu entrei nessa escola, dei uma cadeirada num guri abusado e fui pra diretoria. Foi a primeira de uma série... Inaugurou o capítulo Elas x Eles e foi a primeira vez que percebi realmente que homens e mulheres eram bem diferentes. E que eles me tiravam do sério.
- 1988: me lembro das notícias sobre a morte do Chico Mendes. Lembro que ficava pensando: mas por que mataram um cara que queria proteger as árvores? Veia biológica aparecendo... Foi também mais ou menos nessa época que quase deixei meus pais loucos com bilhetes de NÃO ESQUEÇA A MINHA CALOI, porque eu queria uma Caloi Cross Extra, enquanto todas as outras meninas andavam de Cecizinha. Eu queria ser radical! Oh yeah! Veia mutcholoca aparecendo também... Presidência da rua, arrecadação de comida pros pobres (e ainda brigava com os vizinhos que queriam doar gelatina, dizendo "Você acha que o pobre tem gás pra esquentar a água pra fazer a gelatina?!"). É dessa época uma das memórias mais lindas que tenho até hoje: minha mãe organizando um mutirão de arrecadação de donativos para os desabrigados das enchentes do Rio de Janeiro. Nosso quintal, sala e um dos quartos ficaram abarrotados de coisas e ela passava dia e noite selecionando. Depois conseguiu um caminhão pra levar até o Rio. Lembro que ela era a minha heroína por conta disso! É dessa época também umas memórias bem tristes da minha família...
Bom, daqui em diante, não consigo mais colocar em datas.
Mas lembro do arroz-doce da minha avó, que eu adorava. Até o dia em que ela guardou o arroz do lado do sabão em pó e o doce pegou gosto. Uma desgraça!
Lembro também da Guerra do Iraque, em que eu comprei um caderno e documentei todos os dias de noticiário sobre a guerra, todas as manchetes, recortes, tudo. É que nessa época eu queria ser jornalista. Mas depois passou a vontade. Da sessão PROFISSÕES, quis ser jornalista, engenheira aeronáutica, professora de educação física e bióloga. Optei pela última.
Lembro do pogobol e dos tombos homéricos que eu tomava.
Lembro do meu pai escorregando numa pedra, numa cachoeira, caindo e se machucando, e do meu avô caindo na escada: foram as primeiras vezes que eu senti que a vida não era justa. Porque pai e vô não tinham sido feitos pra se machucar, droga!
Lembro de ficar me equilibrando em pé em cima do muro da sacada de casa.
E da minha mãe entalada entre o guarda-roupa e o teto, depois que tentou limpar-tudo-bem-limpinho, com era de praxe... E a gente com a filmadora do pai filmando tudo e se acabando de rir (sorte que não tinha youtube naquela época, senão a bunda da mãe tinha ganhado cadeia nacional).
Lembro das brincadeiras de aventura na chácara - em que o mais ralado ganhava.
E de colocar uma lasca de frasco de yakult entre o paralama e o pneu da bicicleta, pra fazer TRRRRRRRRRRRRRR e parecer uma motinho - menina radical.
Dos barrancos - eu tinha loucura por barrancos - em que eu queria descer perigosamente.
Dos animais que apareciam na chácara - e da dor profunda que eu senti quando atingi uma perdiz com o meu estilingue. Jurei que nunca mataria nenhum ser vivo em toda minha vida. Lembro que quis quebrar o juramento quando comecei a namorar...
Brincava de pobre com a minha prima. A gente tinha uma estranha obsessão com pobreza. Brincava de favela, umas coisas meio sádicas, credo. Não sei de onde veio isso. E a gente também escravizava umas primas da minha mãe na brincadeira: elas tinham sempre que lavar o chão e nos servir. Credo, meninas más...
Lembro dos finais de semana na casa da vó e da confusão que eu criava ao esconder a chave do carro, porque queria dormir lá.
Meu avô contando a mesma piada sempre, que eu AMAVA, do bechano-méau.
Meu primo e eu se arrebentando na porrada, e depois sendo os melhores amigos de aventura.
A gente zoando a minha prima, que se tornou uma grande amiga depois.
Eu e minhas irmãs sempre juntas -uma por todas e todas por uma.
O uniforme tenebroso da escola, vermelho.
E muitas coisas mais que, por si só, dão um blog.
Lembro que senti que minha infância tinha acabado quando tinha 14 anos e meus pais se separaram. Uma tristeza funda e uma atrapalhação imensa nas idéias. A tristeza passou aos poucos, mas a atrapalhação, essa tá aqui até hoje... Mas depois vi que tinha me enganado, que minha infância não tinha acabado. A minha imensa capacidade de me surpreender com tudo, de me admirar com as coisas, de curtir tudo até a última gota, de fazer festa, de ter amigos, de estar sempre aprontando, sempre em aventuras, sempre na adrenalina, mostra que a minha infância nunca acabou. Que eu apenas cresci, sem assassinar a criança doida que eu fui. Que subia pelos batentes e se jogava do alto, que fazia caixãozinho pra dar um velório digno às formigas, que vivia se estabacando pelos cantos e não dava paz à minha mãe. Que levava os professores pra diretoria quando eles não se comportavam bem. E que chegou a judiar muito de uma garota na escola. Já procurei por essa ex-garota-hoje-mulher muito na vida, e nunca a achei. Queria pedir desculpas pela idiota que fui e por tê-la feito chorar. Nunca a achei, uma pena. Procuro pelo nome e sobrenome dela mas nada. Olha, se serve de consolo, sofri bastante pelos mesmos motivos também, colega. Desculpa o mal jeito... Pago na próxima, se eu não te achar nessa.
Uma coisa da qual me lembro era que eu queria ser doutora. Não sei porquê. Não sei onde vi isso. Lembro até que meu tio dizia que se ele tivesse mais um filho, o nome seria DOTÔR. Porque mesmo pobre, todo mundo teria que chamá-lo de DOTÔR. Lembro que a primeira vez que quis ser doutora, foi pra achar a cura da AIDS. Táloco, minina doida...
Daqui a 10 dias vou ser doutora... E aí?
Bom, aí vai ser partir pros outros sonhos de criança.
Dominar o mundo!
... ou coisinhas mais simples, como ter uma casa de tijolo à vista e com muito barranco, pra eu brincar de aventura com as crianças - minhas ou dos amigos -, talvez um jipe na garagem (porque colocar lasca de frasco de yakult na bicicleta não vai pegar muito bem) e alguém pra dividir a vida, ou partes dela. Porque esse último aí também era um sonho de criança, encontrar alguém que também gostasse de aventuras como eu e com quem eu pudesse me divertir e fazer dos sonhos, realidade. Já cheguei bem perto desse desejo de criança algumas vezes, mas ainda não como eu quero. Mas, eu já disse: nunca fui uma criança comum. Nunca fui muito chegada em príncipe...
E é aqui que entra uma das coisas mais atuais e divertidas que ouvi nos últimos tempos.
De autoria de CHOCOLAAAATE, lá vai:
"Eu não sei de onde esses hómis tiraram essa idéia de querer princesa, gente.
Eles não são bonitos, não têm cavalo, nem castelo, não enfrentam o dragão e ainda querem princesa???"
Os príncipes nunca me interessaram muito. Eu sempre gostei mesmo é do lobo mal... Mas eu já tô desconstruindo essa crença aí também. Hoje prefiro os Wolverines. Por que? Traóra explico...